Shiatsu e a formação de recursos humanos

Clinico com shiatsu faz quinze anos e estive constantemente em contato com a formação em shiatsuterapia (ou, simplesmente, shiatsu) disponível no mercado carioca. Considero-a insatisfatória, no geral: observo que os recém-formados padecem de diversos males que vão desde dores e problemas de saúde diversos, originários da aplicação de uma técnica falha, até o desconhecimento do alcance terapêutico da arte, muitas vezes percebida confusamente como uma técnica complementar da racionalidade biomédica, tendo suas categorias de diagnose, próprias da racionalidade médica chinesa, substituídas pelas da medicina hegemônica. Cabe destacar os incontáveis os relatos que ouço de pessoas que, terminando uma formação em shiatsu, não conseguem sequer se manter atuantes na clínica devido aos problemas da saúde de que passam a sofrer em decorrência da prática, vivendo a estranha contradição de temer uma agenda cheia. Escrevi este artigo, com base em minha experiência de treze anos coordenando cursos livres de shiatsu, com o intuito de ajudar o interessado a avaliar as propostas de ensino disponíveis no mercado.

O que é

O shiatsu é uma forma de intervenção da racionalidade médica chinesa, desenvolvida no Japão. Esse país já possuía uma antiga tradição de massagem, originária da China, chamada anma ou amma (do chinês an mo, pressionar e esfregar), desenvolvida a partir do período Edo (1603-1867). Inicialmente praticada por cegos, o anma não tem como centro de sua atenção clínica as categorias de canais ou de cavidades (jing e xue, comumente traduzidos como meridianos e pontos) e possivelmente por isso foi lentamente perdendo prestígio na comparação com os diagnósticos sofisticados de outras formas da racionalidade médica chinesa – como o tratamento com remédios ou acupuntura – chegando ao final do século XIX rotulado de massagem estritamente relaxante e para o prazer, únicos objetivos para os quais era licenciada (recentemente os aspectos terapêuticos do anma têm sido recuperados pelo trabalho do prof. Mochizuki Shogo, radicado nos EUA, que editou alguns livros sobre sua tradição familiar de anma com grande sucesso).

O trabalho de regulagem da vitalidade centrado na utilização das possibilidades terapêuticas específicas dos canais e cavidades através de técnicas de toque popularizou-se no mundo todo a partir do Japão com o shiatsu, que significa literalmente shi, dedos e atsu, apertar. A arte foi batizada por Tamai Tempaku, ao publicar, em 1919, um livro chamado Shiatsu Ho (método de shiatsu, ou "de pressão com os dedos"). Não se deve, portanto, imaginar que o shiatsu seja uma técnica milenar da sabedoria oriental ou coisa semelhante – muito pelo contrário, é um desenvolvimento recentíssimo em termos da história da racionalidade médica chinesa, somente tendo sido regulamentado em seu país de origem por um conjunto de leis promulgado entre 1955 e 1964.

Como e por quê funciona

O shiatsu é uma modalidade terapêutica da racionalidade médica chinesa e, como as demais, tem sua intervenção orientada para a reconfiguração da ordem vital. Através da pressão no corpo do paciente, o shiatsuterapeuta a um só tempo adquire informações e envia comandos de reconfiguração dessa ordem, valendo-se da rede de canais e das cavidades para tanto. Essa atividade de toque atua em dois planos principais. O primeiro, das configurações do qi e do Sangue, especialmente no tocante à sua circulação. O segundo é o plano do shen ou espírito.

Atuando no qi e no Sangue Entende-se que estas duas grandes manifestações da vitalidade do ser humano conformam um par yin-yang, onde o Sangue representa o yin e o qi (genericamente falando) representa o yang. Para haver boa circulação do Sangue, é preciso haver o qi a dinamizá-lo. Por outro lado, para evitar a dispersão do qi é preciso que este se ancore no Sangue. Em resumo, a tendência yin (estagnar e descer) do Sangue e a tendência yang (dispersar e ascender) do qi se regulam mutuamente.

Em relação ao toque, as manobras objetivam incrementar (otimizando o estado geral da circulação), regular (desfazendo bloqueios e restaurando o sentido normal do fluxo do qi em caso de contrafluxo) e ainda dragar os canais e remover estagnação provocadas pelo frio, umidade etc, de origem externa bem como interna. Pode-se ainda usar o toque para invocar as propriedades terapêuticas características de cada uma das cavidades.

Atuando no shen Na medicina chinesa o tato é o sentido atribuído ao elemento fogo e, portanto, ao Coração. Como o Coração é o coordenador maior de toda a atividade psíquica e afetiva do ser, de sua capacidade de intermediar o interno (subjetivo) e o externo (objetivo) e, portanto, de sua própria sanidade mental, esta assertiva da Tradição é da maior importância para o massagista. O toque é a via de excelência para a comunicação entre os Corações do praticante e o do paciente e é através dele que é possível dizer, muito claramente, que se está cuidando de um paciente, e não examinando ou diagnosticando um portador de alguma patologia. Para que essa comunicação aconteça, contudo, é fundamental que o toque seja firmemente inspirado pela sensibilidade, ou seja, que não se trate de um toque mecânico, fundamentado em alguma diagnose prévia e aplicado a despeito dos sinais que o corpo do paciente dê. Uma diagnose prévia pode – ou não – existir, mas deve estar sempre em segundo plano em relação à realidade que o toque revela, que pode muito bem ter sido encoberta pelo próprio relato do paciente. A partir da qualidade da comunicação entre o paciente e o terapeuta é que vai se formar o elo terapêutico, sabidamente parte integrante e indissociável da clínica e fator determinante de sua eficácia.

Na prática, através do tato o Coração do paciente percebe o retorno que as sensações do toque em seu corpo promovem no terapeuta: se uma região dói, faz cócegas ou gera uma sensação de vulnerabilidade, inconscientemente o paciente espera que o terapeuta reaja a isso. Se o toque continua mecanicamente, ignorando as variações das diversas áreas por onde passa, a mensagem que o Coração do paciente recebe é: “eu não entendo você”. Por outro lado, se a cada sensação diferente a natureza do toque se modifica, o paciente se indaga: “mas como é que ele sabe”? Ele então se sente verdadeiramente assistido e se permite relaxar profundamente - o toque não representa uma ameaça para ele. Ora, o que chamamos de relaxamento nada mais é do que um outro patamar de qualidade na circulação do qi e do Sangue. Efetivamente, o toque aplicado nesse contexto é mais eficaz, pois suas diretrizes são tanto melhor compreendidas pelo organismo quanto menos emperrada está a circulação das vitalidades. Com o tempo, o corpo associa o toque à sensação de bem-estar e termina por reinterpretar mesmo toques profundos e doloridos como agradáveis.

Formação

A partir do que vimos, podemos definir dois grandes eixos ao longo dos quais se deve desenvolver a formação do shiatsuterapeuta. Um deles é a formação propriamente na racionalidade médica chinesa, onde o aluno precisa compreender a riqueza da sua maneira específica de descrever o corpo, a mente, o espírito, o cosmo e as relações entre esses planos que é a vida. Para tanto a categoria racionalidade médica, desenvolvida pela professora doutora Madel T. Luz no Projeto Racionalidades Médicas, do IMS/UERJ, traz uma grande contribuição, por apresentar o conhecimento tradicional chinês de maneira muito familiar, racional e de fácil compreensão. Uma racionalidade médica se compõe de cinco dimensões, ancoradas numa sexta que é a própria cosmologia daquela cultura. As cinco dimensões são a) morfologia, ou uma descrição do corpo; b) dinâmica vital, onde se explica como a vida se estrutura e acontece; c) doutrina médica, que reúne explicações racionais sobre a natureza do adoecer e seu curso; d) diagnose e e) terapêutica.

Um outro plano é o desenvolvimento da sensibilidade e da técnica do toque, que andam de mãos dadas. Para tanto são necessários treinamentos específicos, para regular o qi, tonificar a forma (xing, a forma física) e acalmar o espírito, fundamental para desenvolver a capacidade de “ouvir com os dedos”. Tais treinamentos raramente fazem parte do currículo de formação em shiatsu. Aparentemente, diversas outras disciplinas superficialmente tratadas são consideradas mais importantes para a formação do profissional, mesmo que pertençam a outro saber médico e não tenham nenhuma articulação com a clínica.

Conclusão

Enquanto os cursos de formação estiverem mais preocupados com o número de mensalidades que o aluno paga para se formar do que com o que realmente funciona na clínica do shiatsu, continuaremos a ver o ingresso de profissionais medíocres no mercado, confusos em relação à racionalidade médica onde estão inseridos e com uma técnica de toque precária e pouco resolutiva, que atenta contra a reputação da arte. Esses profissionais, em sua grande maioria sinceros e bem-intencionados, ainda vão ter que enfrentar dores nas costas, desgaste da essência renal, LER etc., advindos de seu despreparo técnico, o que naturalmente contribui para uma prática ainda mais medíocre. Afinal, como pode fazer um bom shiatsu quem está cheio de dores nas mãos e nas costas… e de dúvidas no Coração?