O que é um "tratamento de acupuntura"?

Quando se fala em acupuntura pensamos logo em um tratamento pela colocação de agulhas finas em locais estratégicos do corpo. Certamente acupuntura é isso, sim; mas também é muito mais. Além das agulhas, a maioria dos acupunturistas também utilizará a moxa, que é a combustão das folhas preparadas da artemísia, geralmente sob forma de "charuto". É parte indissociável da acupuntura, que no original em chinês é zhen jiu (agulha / moxa). O acupunturista ainda pode utilizar outras técnicas como ventosas, massagens, raspagem (guasha), uso de pastilhas de metal, sementinhas, micro-agulhas, sangria, fios de bombeamento de íons, emissão da “energia vital” e o estímulo dos pontos de acupuntura com várias ferramentas, algumas emitindo eletricidade, luz, ondas sonoras, magnetismo... Todas essas ações são orientadas pela lógica da racionalidade médica chinesa. E que lógica seria essa? A de que a vida dos seres humanos é organizada; que essa organização implica em algo que poderíamos chamar de “ordem vital”; que essa ordem vital pode ser abalada, levando a estados de adoecimento; que ela pode ser restaurada através de medidas adequadas a cada tipo de adoecimento; e, finalmente, que ela pode se tornar cada vez mais resistente a partir do cultivo da saúde.

Observe-se que o conceito de patologia está ausente. A racionalidade médica chinesa tem sua própria maneira de interpretar os sinais de adoecimento, ouvindo o paciente relatar seus sintomas e observando pulso e língua; coloração, textura e temperatura da pele; postura; timbre da voz etc. Os sinais relevantes, que “fecham” o diagnóstico de cada um, são organizados em “padrões de adoecimento”. É para modificar esses padrões e recuperar a saúde que o acupunturista intervém, e não para combater a patologia, como no caso da medicina "Ocidental".

Quando um paciente recebe um tratamento de acupuntura, ele está passando por uma regulagem da sua ordem vital. Essa regulagem é um processo que estará interferindo positivamente na sua saúde durante algum tempo – os clássicos falam em 75 horas. Depois desse tempo é que o paciente percebe, digamos, onde foi que a “onda da acupuntura” o deixou. Se for em terra firme, ótimo. Mas às vezes a terra está muito distante e são necessárias algumas ondas para levar o náufrago à segurança.

O que a acupuntura tem de altamente desejável é que essas ondas não fazem mal algum ao doente. Ela obedece estritamente ao princípio hipocrático de primum non nocere (“primeiro, não fazer mal”). Assim, mesmo casos difíceis de tratar podem avançar com segurança em direção à saúde: ninguém “morre da cura” em acupuntura.

Um bom tratamento de acupuntura dá uma sensação generalizada de bem-estar. Na acupuntura japonesa que pratico o paciente também deve obrigatoriamente notar redução de dor por pressão em certos pontos a cada sessão. Minha meta é aliviar ao menos 60% da queixa principal ou da dor nesses pontos.

Obtido alívio dos sintomas mais urgentes e registrada melhora geral do quadro, vem a pergunta: a queixa voltará? E quantas sessões serão necessárias para a cura? A resposta depende da vitalidade de cada paciente, de suas condições de vida e sobretudo de seus hábitos. Se um paciente tem dor no cotovelo mas não abre mão do tênis nem por uma semana; se uma paciente sente queimação no estômago mas argumenta que precisa tomar três cafés por dia; se uma criança recebe um diagnóstico de TDAH mas os pais não conseguem propor nada para substituir 4 horas diárias de jogos eletrônicos... a acupuntura vai ter que lidar com o problema da pessoa e com esses agravantes presentes no cotidiano – será um trabalho mais difícil e demorado. A parceria entre o paciente e o acupunturista leva a bons resultados mais depressa.

Nós, acupunturistas, tratamos sujeitos e seus padrões de adoecimento, não patologias: a receita do sucesso está no grau de habilidade de cada profissional em ajustar constantemente o tratamento à necessidade do indivíduo, fazendo uma “sintonia fina em tempo real”. É como conseguimos implementar transformações e recuperar saúde e bem-estar até mesmo em casos sem resposta em outras racionalidades médicas.